terça-feira, 27 de agosto de 2019

O ESPAÇO E SEUS SISTEMAS DE REPRESENTAÇÃO

Parte 1


Atualmente há uma percepção mais nítida dos métodos de representação típicos das culturas do passado e das que existem hoje no mundo. Assim os artistas podem desenvolver uma tônica para o seu trabalho a partir de um amplo leque de abordagens estilísticas e interpretativas dentro de muitos sistemas alternativos de representação visual.
(SMITH, 1996, p. 8)

Nem sempre, ao longo da história da arte, a projeção dos objetos em profundidade no espaço pictórico foi algo a ser alcançado. O espaço na arte de mural egípcia era bidimensional. Não havia indicação de profundidade. A disposição dos personagens seguia um esquema hierárquico. Algo que se convencionou nomear como perspectiva hierárquica (hierarchical proportion).


Baixo relevo A Batalha de Til-Tuba, Assíria.

A imagem abaixo mostra  Khnumhotem – o morto a quem o túmulo é dedicado – em dois momentos: um de caça e outro de pesca. O tamanho desproporcional de Khnumhotem frente aos outros personagens na cena deve-se a sua posição social e não pela disposição em profundidade dos personagens no espaço pictórico. 

Mural do túmulo de Khnumhotep (1900 a.C.)

Segundo Gombrich, era mais importante para o artista egípcio representar seus motivos a partir do ângulo mais característico e  com a maior clareza possível. Tanto que os artistas desenhavam de memória e de acordo com regras estritas. A principal delas podemos chamar de “lei da frontalidade”.

Tudo tinha que ser representado a partir de seu ângulo mais característico. 
Representavam tudo com a maior clareza possível.
Desenhavam de memória e de acordo com regras estritas.
(GOMBRICH, 1999, p. 60 / 61)

O jardim de Nebamun (1400 a.C.)

As árvores estão posicionadas ao redor do tanque, mas estão de frente para o observador.
O tanque é visto de cima. Os pássaros e os peixes são vistos de lado.
(GOMBRICH, 1999, p. 60)

Na arte grega arrefecia a busca por mostrar tudo que o artista sabia existir no motivo a ser representado.

Já não pensava que tudo o que ele sabia estar ali tinha forçosamente que ser  mostrado.  
(GOMBRICH, 1999, p. 81) 



A despedida do guerreiro (510-500 a.C.)

Crescia a percepção da profundidade e sua representação na superfície bidimensional. O surgimento do escorço entre os gregos denunciava de alguma forma que a representação realista do espaço começava a ser um problema a ser resolvido pela a arte.

Os pintores compreenderam o que seus olhos realmente viam e fizeram a descoberta do escorço.
(GOMBRICH, 1999, p. 81)

Há uma aproximação possível com a pintura mural da antiguidade no mesmo período.

A pintura arcaica foi essencialmente desenho preenchido com tintas e cores simples.  
(JANSON, 2001, p.151)
Dançarinos etruscos (tumba perto de Tarquínia, Itália – 470 a.C.).


Ainda assim, a ausência do ponto de fuga na arte da antiguidade demonstra que a representação do espaço em profundidade ainda era um problema a ser resolvido.









Não se revela a existência de um único ponto de fuga em nenhuma das pinturas antigas que se conservaram. 
(PANOFSKY, 2010, p. 22)





A arte da Antiguidade Clássica era "uma arte de corpos. Não unia pictoricamente os vários elementos tridimensionais de maneira funcional e proporcional em uma unidade especial. Os elementos eram dispostos tectonicamente ou plasticamente em conjuntos de grupos".
(PANOFSKY, 2010, p. 25)




A maneira de intuir o espaço na antiguidade não exigia um espaço sistemático. As variadas teorias do espaço na antiguidade não o definiram como um sistema de relações entre altura, comprimento e profundidade.
(PANOFSKY, 2010, p. 27)


Abraão e os três anjos (sec. V d.C.): Mosaico de San Vital de Revena - Itália.

O sistema de representação espacial mudou pouco até a idade média. Segundo Arnheim, a sobreposição é uma das técnicas na ilusão de profundidade. Porém, como é possível verificar na ilustração abaixo, há sobreposição, mas não há profundidade. Não existe espaço entre as figuras no plano. Estão todas coladas umas às outras.

O sepultamento de Cristo (1250-1300)

Foi Giotto di Bondone (1267 – 1337) que trouxe a profundidade para o espaço pictórico.


Giotto redescobriu a arte de criar a ilusão de profundidade numa superfície plana. 
(GOMBRICH, 1999, p. 201)



Existem ar e espaço entre as figuras no quadro e todas podem movimentar-se. 
(GOMBRICH, 1999, p. 202)


Com o trabalho de Giotto começa a superação dos princípios medievais da representação. A superfície pictórica não é a parede ou a mesa na qual as formas de coisas ou figuras singulares são representadas, mas é novamente, apesar de ser limitada por todos os lados, o plano através de qual parece que estamos vendo um espaço transparente.
(PANOFSKY, 2010, p. 37)

Cimabue e Giotto

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